Uma ocasião, há alguns anos atrás, um dilema se levantou na agência de viagem para a qual trabalhava… Havia entrado lá, no dia anterior, um grupo de animados senhores procurando por viagem à Disney. O agente que os atendia, surpreso com a escolha, após mostrar as opções disponíveis, tentou sugerir-lhes algumas opções de excursão à Europa e outros lugares que, aparentemente, pudessem se “adequar” melhor ao perfil daqueles simpáticos  e animados viajantes. Tudo em vão… Eles queriam mesmo era se divertir no reino mágico de Walt Disney, na Flórida.  Disseram que eram um grupo de amigos, 14 pessoas, que sempre viajavam juntos e nunca tinham ido à Disney. Faltava esse sonho a ser realizado… Estavam empolgadíssimos, mas, apresentaram ao agente de viagens uma única “exigência”: não queriam entrar em um grupo da operadora, mas, queriam que eles formassem um grupo, só com eles e, é claro, um guia da empresa. Depois de tudo negociado e acertado com a direção da operadora, ficou decidido que o grupo iria no mês de Novembro daquele ano, com um guia da operadora em questão, a ser confirmado nome e apresentado para eles na semana seguinte.

Quando reuniram-se todos os guias e coordenação da empresa, para expor o novo grupo e decidir quem seria o guia destacado para aquela missão, para minha surpresa (e da direção e coordenação também!!), NINGUÉM se interessou e, muito menos, queria saber de acompanhar aquele animado grupinho durante 13 dias em Orlando. Confesso, sinceramente, que achei que todos iriam querer, visto o número muito pequeno de pessoas, num mês tão tranquilo, mas, a verdade é que ninguém quis… As desculpas eram as mais variadas e “criativas” possíveis, lembro-me como se fosse hoje. Depois da última desculpa dada, e o silêncio invadir a sala de reunião, virei ao diretor e, com um sorriso no rosto disse: “Eu ADORARIA acompanhar esta turma na realização desse sonho deles!”. O diretor abriu um sorriso de orelha a orelha e todos os colegas guias olhavam para mim com olhares que diziam: “você deve estar, no mínimo, maluca, né!?”.

 

 

Aceitei o desafio, pois queria ver, “ao vivo e em cores” , como seria mostrar a Disney para esta outra faixa etária, quais seriam as reações deles, as emoções, como reagiriam ao encontro com o Mickey, à passagem das paradas e, em especial, tentar sentir na pele o que o criador daquele mundo de sonhos, Walt Disney, quis dizer quando apresentou ao mundo um parque de diversão para TODAS as idades. Na semana seguinte, foi marcada uma reunião na empresa com a minha animada turminha, e saí de lá, mais certa do que nunca, de que tinha “acertado em cheio” ao aceitar o desafio e que seria uma viagem, realmente, inesquecível!!

No dia da viagem, cheguei, como de costume, 4 horas antes do horário do embarque ao aeroporto e, qual não foi a minha surpresa ao ver, meia hora depois, todos os meus queridos passageirinhos, chegando, todos juntos, com tanta antecedência. Fizemos o check-in todos juntos, sentamos para tomar um café e, então, durante este animado encontro, pude começar a conhecer um pouquinho mais de cada uma dessas pessoinhas tão especiais, que estariam junto comigo pelos próximos 13 dias.

Chegamos em Orlando e, devido à idade do meu grupo, havia decidido, logo que assumi o grupo, junto com a agência, que não iríamos a parque nenhum naquele dia. Fizemos nosso check-in no hotel, e disse a eles que teriam o tempo necessário para arrumarem as coisas, tomarem um banho e depois sairíamos para um passeio no Florida Mall. E assim fizemos. Tudo com muita tranquilidade, sem atropelos, sem afobação e sem nada daquela agitação tão comum em 100% dos grupos de turistas assim que chegam à Flórida.

 

 

Durante todos os dias que se seguiram, eles fizeram com que eu me sentisse a neta de todos eles, pois, o mais velho, naquela animada turma, estava próximo de completar 82 anos e, o mais “jovem” deles, com 69 anos de pura alegria.

Fomos aos três parques da Disney (na época ainda não existia o Disney’s Animal Kingdom!), Universal Studios, Sea World, Busch Gardens, retornamos mais uma vez ao Magic Kingdom, fizemos compras no Florida Mall, Belz Factory Outlet (atual Premiun Outlet!), lojas brasileiras pela região da International Drive, enfim, tudo num ritmo completamente diferente do habitual com grupos, mas, extremamente alegre e prazeroso, a ponto de eu nunca mais ter esquecido deles.

O encontro com o Mickey foi, simplesmente, fantástico! Tive a sensação de ter crianças bem pequeninas, porém, com os cabelinhos completamente branquinhos, pois o brilho nos olhos ao ver o famoso camundongo e o sorriso bem aberto ao abraça-lo para a foto tão desejada, eram os mesmos que via nas menores crianças que já havia levado à Disney. A expectativa pela passagem das paradas, então, não menos empolgante do que qualquer outro grupo que já tivesse tido o prazer de acompanhar: máquinas fotográficas e filmadoras em mãos, todos sentadinhos, lado a lado, na calçada da Main Street, com seus pacotes de pipoca e muita animação. Interessante, também, foi a alegria com o famoso “sorvete de orelhinhas” do Mickey… Nessa hora, esqueci que acompanhava um grupo da “terceira idade”, mas, realmente, me senti com um grupo de crianças entre 6 e 8 anos, todos alegres com seus sorvetes, olhando para ele com sorriso no rosto e, como todos, ansiosos pela primeira mordida na orelhinha…

 

 

E para aqueles que pensavam que eu iria cansar, ter uma viagem monótona e cansativa, onde eles se cansariam facilmente e não teriam “pique” para muita coisa, reclamariam de tudo e mais um pouco, o meu relatório de grupo surpreendeu e muito a todos. Nunca tive um grupo, como este, nem antes e nem depois, que sempre chegavam com, no mínimo, 20 minutos de antecedência, todas as manhãs, no lobby do hotel, não reclamaram nem uma vez sequer de uma atração que quebrou, ou da fila de espera nas atrações e nos restaurantes, estavam prontos e dispostos a tudo e curtiam cada detalhe de cada passeio, desde os mais simples e, aparentemente, imperceptíveis, até os maiores.

Lembro, com alegria no coração, do momento em que, no Magic Kingdom, um dos meus “vovôs” viu o famoso chapeuzinho com as orelhas do Mickey, em uma loja em Fantasyland e, obviamente, chamou a atenção de todos os demais. Ficaram atônitos quando viram que, ao comprar o famoso chapéu do “Clube do Mickey”, como diziam uns aos outros, poderiam ter os nomes bordados nos mesmos. Todos eles compraram, cada um com o seu nome e ainda compraram um para mim e pediram para bordar “Tati”. Saimos os 15 pelo parque com o chapeuzinho de orelhinhas do Mickey.

Falo, com plena e total certeza, que este foi, sem a menor sombra de dúvidas, o meu melhor grupo para a Disney, que me marcou de maneiras muito especiais, e o que me fez contemplar, com os meus próprios olhos, a idéia fantástica de Walt Disney, ao criar um lugar onde pessoas de todas as idades, de todos os lugares do mundo poderiam se divertir e serem felizes juntos. Um lugar, como diz a placa inaugural, onde o ontem é hoje e o amanhã é para sempre…

 

Por Tatiana Colledan

Comentários

  • Maria Cristina
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    Fiquei imensamente comovida ao ler seu relato. Justamente estava procurando alguma agência de viagens que tivesse planos especiais para levar idosos à Disney, porque meu pai (de 89 anos) quer ir de novo lá (ele já foi a cerca de 20 anos) e talvez eu não possa acompanhar-lo. Se você receber esta mensagem, e se puder, me responda dizendo se vocês aceitam idosos desacompanhados. Parabéns!

  • Alexandre
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    Também li seu texto com lagrimas nos olhos, levarei minha mãe e minha filha no final de novembro/2015 para Disney. Estava buscando as melhores opções para nos divertirmos juntos, pois uma tem 70 anos e a outra apenas 12. Minha mãe é uma pessoa muito humilde, teve uma infância pobre e necessitada e graças a deus tenho como levá-la, foi difícil convencê-la disso, mas nada que chegar com a passagem comprada e um ano de insistência para mudar este cenário.
    Obrigado.

  • Jessica
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    Chorei muito lendo seu texto, simplesmente maravilhoso! Vou levar minha māe e minha tia à Disney esse verāo e precisava desse incentivo, estava com medo das duas naāo curtirem muito, mas depois do seu texto, eu pude perceber que realmente esse mundo mágico nāo tem idade.